queconceito

(tradução: Carlos Antonholi . imagem : queconceito.com)

 

As pessoas estão imbuídas ao extremo em um sistema estabelecido que é incapaz de conceber alternativas para os critérios impostos pelo poder.

Para alcançar seu objetivo, o poder lança o entretenimento vazio afim de inchar a nossa sensibilidade social e nos acostumar a ver a vulgaridade e a estupidez como se fossem as coisas mais normais do mundo, nos incapacitando, assim, de alcançar uma consciência crítica da realidade.

No entretenimento vazio, o comportamento desrespeitoso é considerado como elemento positivo e temos este exemplo exposto de forma clara em alguns programas televisivos. O futebol é outra maneira, mais eficaz talvez, que tem o sistema estabelecido para distrair a sociedade.

Nesta subcultura do entretenimento vazio, o que se promove é um sistema baseado nos valores do individualismo possessivo, em que a solidariedade e o apoio mútuo são considerados como algo ingênuo. No entretenimento vazio tudo está pensado para que o indivíduo suporte estoicamente o sistema estabelecido sem repreender. A história não existe, o futuro não existe, apenas o presente e a satisfação imediata são relevantes. Por isso não é estranho que se proliferem os livros de autoajuda, o misticismo e as  variantes do clássico “como tornar-se milionário sem esforço”. 

Em última instância do que se trata no entretenimento vazio é a de nos convencer de que nada se pode fazer contra ele. De que o mundo é assim e de é impossível mudar. Que o capitalismo e o poder opressor do Estado são tão naturais e necessários como a própria força da gravidade. Por isso é normal escutar : “é algo muito triste, porém sempre tem havido pobres oprimidos e ricos opressores e sempre haverá. Não há nada que se possa fazer. “

O entretenimento vazio tem conseguido a proeza extraordinária de fazer com que os valores do capitalismo sejam também os valores daqueles que se vêem escravizados por ele. E isto não é algo recente. Étienne de La Boétie, no século XVI,  deixou claro seu estupor em seu pequeno “Discurso da Servidão Voluntária” no qual constata que a maior parte dos tiranos perduram, exclusivamente, devido ao consentimento dos próprios tiranizados.

O sistema estabelecido é muito sutil e com sua estupidez forja nossas estruturas mentais. Ele se vale do púlpito que todos temos em nossas casas: a televisão. Nela não há nada que seja inocente, em cada programa , em cada filme, em cada notícia, sempre resume os valores do sistema estabelecido e sem que tomamos conta, acabamos por acreditar que a verdade é assim, nos introduz seus valores em nossas mentes.

O entretenimento vazio existe para ocultar a evidente relação entre o sistema econômico capitalista e as catástrofes que assolam o mundo. Por isso é necessário que exista o espetáculo: para que enquanto o indivíduo se degrada afundando no lixo em que submete o poder pela televisão, não enxerga o óbvio, não protesta e continua permitindo que os ricos e poderosos aumentem seu poder e riqueza, enquanto os oprimidos seguem padecendo e morrendo em meio a suas existências miseráveis.

Se seguirmos a permitir que o entretenimento vazio continue modelando nossas consciências, e portanto o mundo, a seu capricho, terminará por nos destruir, porque seu objetivo não é outro senão o de criar uma sociedade de homens e mulheres que abandonem seus ideais e aspirações que os fazem rebeldes, para conformar-se com a satisfação de necessidades induzidas pelos interesses das elites dominantes.

Assim, os seres humanos ficam despojados de toda personalidade, convertidos em animais vegetativos, sendo desativada por completo a velha ideia de lutar contra a opressão, transformados em um grupo de egoístas desenfreados, ficando as pessoas solitárias e desvinculadas das outras, absortas na exaltação de si mesmas.

Desta maneira, os indivíduos ficam sem vontade de mudar as estruturas opressoras (que já não são mais percebidas com tal), já não restam mais forças nem coesão social para lutar por um mundo mais justo.

Ainda, se quisermos reverter tal situação de alienação a que estamos submetidos, resta apenas, como sempre, a luta, a contraposição aos valores do espetáculo vazio para o surgimento de uma nova sociedade. Uma sociedade em que a vida dominada pelo absurdo deste acontecimento seja apenas uma lembrança de tempos estúpidos em que os seres humanos permitiram em que suas vidas foram manipuladas de modo tão obsceno.

 

(tradução livre de Carlos Antonholi para o texto de Fernando Navarro – La Haine – AnnurTv.com)

 

 

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[Duke/O Tempo]

via Duke — VILLASNEWS

Valter Hugo Mãe ficou em Belo Horizonte quatro dias. Participou do “Sempre um Papo”, visitou o Inhotim e o Museu de Artes e Ofícios, ganhou de Ronaldo Fraga e Ivana um jantar delicioso no Grande Hotel, Rodrigo e Paulo Pederneiras serviram um ensaio matutino especial na sede do Grupo Corpo. Atacou fervorosamente os sebos, enchendo […]

via Valter Hugo Mãe visita BH e deixa um texto para os brasileiros — Blog do Afonso Borges

Leonardo Boff

René Girard (1923-2015), pensador e filósofo francês, o maior sábio que conheci na minha vida e esteve com teólogos da libertação no Brasil em 1990, dedicou grande parte de sua vasta obra a estudar a violência, especialmente a necessidade de uma sociedade, de criar um bode expiatório (ver O bode expiatório 1982).

Por esse mecanismo do bode expiatório, a população é levada a descarregar a corrupção que está difusa e concentrada nos grandes corruptos e corruptores nas costas de um só, do PT, com a finalidade de esconder a própria corrupção. Com isso, toda a sociedade passa a esquecer os reais corruptos e a pensar que que ela está somente no PT no qual se despeja toda a raiva e o ódio. É feito bode expiatório já testemunhado na Biblia. Os hebreus punham em cima de um bode todos os pecados e malfeitos do povo e o enviavam para o…

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Blog do Gerson Nogueira

latuff-600x483Por Francisco Assis – Jornal Público (Lisboa)

Com tantas e tão importantes coisas a ocorrerem na Europa, sinto-me impelido a escrever, uma vez mais, sobre o Brasil. Por estes dias, que correm tumultuosos e quase insanos, não é só o destino imediato do seu país que está nas mãos do povo brasileiro. É algo bem mais vasto. Nem sempre é fácil destrinçar a linha, por vezes muito ténue, que separa a civilização da barbárie. O próprio movimento civilizacional engendrou historicamente múltiplas formas de barbárie. Há, porém, ocasiões em que essa demarcação se pode estabelecer com absoluta nitidez. Quando assim é, tudo se torna simultaneamente mais simples e mais dramático. Conhecemos alguns episódios da história europeia, penosamente trágicos, em que facínoras de índole antidemocrática e antiliberal se guindaram ao poder por via do voto popular. Não ignoramos o que daí resultou. É por isso mesmo que, no próximo domingo, os…

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via MARIANO

identidade

A televisão pode ser uma ferramenta importante, uma janela da realidade e da informação. Pelo menos é assim que, acho, deveria ser.  Quando surge algo, vamos dizer inaceitável pela opinião pública, cria-se uma polêmica. Até aí, acho normal e até saudável que haja um tipo de discussão sobre o objeto da polêmica. Ainda mais em tempos de acesso em massa às redes sociais na internet. Polemizar pode ser importante, mas é necessário, antes, haver argumentos sustentáveis para que possa chegar a um ponto comum na discussão.

O último episódio, ocorrido na novela das 21h da Rede Globo  “O Outro Lado do Paraíso” , de Walcyr Carrasco, em que há um afetuoso beijo entre dois personagens do sexo masculino é um exemplo claro de que alguns seguimentos da sociedade apenas não aceitaram a cena como foram manifestar a desaprovação na rede. A maioria com aquele argumento simplório: “Como vou explicar ao meu filho o beijo gay da novela?”

Bem. Aí começa um grande debate, meus amigos!

Primeiro porque se a dramaturgia nacional, no que diz respeito às telenovelas, passasse por uma análise, seriam encontradas outras situações dignas de polêmica que passam “despercebidas” pelo telespectador.

Na mesma novela, por exemplo, o personagem espancou a esposa e foi protegido pela mãe. Então agressão não é crime, não é assunto para indignação?  Por que a homossexualidade seria?

Outro exemplo é a novelinha vespertina “Malhação”, da mesma emissora de televisão, onde temas igualmente polêmicos são abordados para um público jovem sem alardes da opinião pública.

Outra questão é: Qual é a idade deste filho que precisa da explicação dos pais para saber o que é um “beijo gay*” Sim, porque a novela das 21h é imprópria para menores de 14 anos segundo a classificação do programa. Se este filho tem menos do que isso, não deveria nem acompanhar a novela.

Agnósticos questionariam como estes pais explicaram aos filhos o pecado bíblico de Adão e Eva no episódio da cobra falante que seduz a mulher para comer uma maçã ou como a mulher foi nascida da costela de um homem e gerou dois filhos que povoaram o planeta? (aqui já abrimos assunto para outra polêmica).

Enfim, responder à pergunta, ao levar em consideração estes e outros pontos, não é tarefa fácil para ninguém. Eu não atreveria responder, porque provavelmente seria indelicado com o interlocutor.

A solução para evitar polêmicas sem fundamento como esta é, talvez, buscar a informação. Procurar saber mais sobre o assunto por meio de pesquisas e enxergar todos os lados da história antes de opinar pode ser também uma saída bem mais inteligente que correr para as redes sociais expor sua insatisfação.  #ficaadica

 

*(*Não gosto deste termo, já que não existe “beijo gay”, “beijo gordo”, etc. Ser homossexual é uma característica da pessoa e não do beijo. Uso aqui o termo  porque é assim que é exposto nos canais a que refiro)

S.P. ,  Maio de 2018.

#ooutroladodoparaíso #redeglobo #dramaturgia #telenovela

Numa sociedade cada vez mais fragmentada, na qual percebemos o crescimento alarmante do individualismo, precisamos resgatar o senso comunitário.

Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço de continente, uma parte da terra firme.

Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço de continente, uma parte da terra firme. (Reprodução/ Pixabay)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Escreveu John Donne, autor do poema Por quem os sinos dobram?: “Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço de continente, uma parte da terra firme”. Fazemos a humanidade! Nascemos para a relação e, sozinhos, não podemos nos realizar humanamente. Desde muito cedo o ser humano aprendeu a importância do coletivo: para além da sobrevivência, motivo urgente que nos faz ser sociáveis, fazemos cultura, criando possibilidades dignas de que desenvolvamos, quanto mais, nosso ser pessoa.

As comunidades fazem parte do nosso cotidiano. O entendimento que vamos tendo, ao longo do tempo e das circunstâncias, a respeito do significado de comunidade, vai se transformando, mas, inevitavelmente, relacionamo-nos, em diferentes possibilidades de ambiência. Família, escola, trabalho, igreja, templos, terreiros, centros… A Internet criou novas possibilidades de se formarem comunidades. Fala-se, muito, em comunidade global, ainda que esta seja apenas uma utopia.

Numa sociedade cada vez mais fragmentada, na qual percebemos o crescimento alarmante do individualismo, com graves e preocupantes consequências, precisamos resgatar o senso comunitário que nos trouxe ao estágio em que nos encontramos, ao longo de milhares e milhares de anos de evolução. A educação para o senso de comunidade e de corresponsabilidade precisa ser assumida como urgência permanente. Saindo das ilhas que, ilusoriamente criamos para nós mesmos, podemos conceber novas maneiras de viver no mundo, criando teias de solidariedade e de fraternidade.

Ampliando a conversa

No texto Algumas ideias simples sobre o “ser relação”, Vitor Fernandes reflete, numa perspectiva filosófica, as influências do espírito do consumo industrial capitalista na maneira como temos estabelecido relações e, ainda, o perigo da perda da sensibilidade para a sociabilidade. Como perspectiva, aponta para a importância de trazermos o conceito próprio da ecologia, a sustentabilidade, como possibilidade de nortear nossas relações humanas.

Edward Guimarães, no artigo A família e a vida em comunidade: o ser humano como ser em construção, reflete a partir do núcleo mais fundamental da sociedade, a família, na qual somos educados e, permanentemente, capacitados para a vida em comunidade. Nesse sentido, o cuidado para com a infância se faz fundamental e urgente. Cuidar da família, nos seus mais distintos arranjos, é, em última instância, cuidar do indivíduo e, com ele, da sociedade.

Por fim, ampliando a reflexão numa perspectiva religiosa, César Thiago Alves propõe o artigo: Religião e superação do individualismo: do ópio à libertação. A religião exerce, sem dúvidas, forte influência de cunho determinante na vida das pessoas, seja positivamente, sejam negativamente. A partir da crítica marxista à religião, como ópio do povo, nosso autor propõe uma leitura de como a religião pode – e deve! – ser um serviço à libertação.

Boa leitura!

 

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.

 

 

Luciana Hidalgo é uma premiada escritora brasileira reconhecida com prêmios internacionais; leia aqui a carta que ela desmascara o lula

Sr. Ex presidente,

O que o senhor fez no Brasil foi uma revolução. Não uma Revolução Francesa, que guilhotinou cabeças da realeza para exigir na marra liberdade, igualdade, fraternidade. Não, o senhor não cortou cabeças, nem expulsou ricos de suas propriedades privadas como a Revolução Russa, tampouco roubou a poupança das classes abastadas (como aquele presidente eleito no Brasil em 1989 roubou). O senhor manteve as elites ricas e contentes, mas foi mexendo dia após dia nos mecanismos de poder que excluíam perversamente os pobres da nossa sociedade e negavam o que todo país decente deveria garantir: sua cidadania, isto é, sua dignidade.

Por isso, de início, seus microgestos, sutis, pouco saíam nos jornais, mas abalavam gradativamente as estruturas viciosas do poder. Sou leitora de Michel Foucault e atesto que o senhor fez genial e intuitivamente, na prática, num país periférico e violento, muito do que esse célebre filósofo francês teorizou sobre micropoder. O senhor modificou, programa após programa, a microfísica do poder no Brasil.

Explico como: logo de início o senhor abriu crédito para ajudar pobres a comprar eletrodomésticos básicos; subsidiou a compra de tintas e materiais para que construíssem suas casas; criou o Banco Popular, ligado ao Banco do Brasil, permitindo que pobres tivessem conta em banco; levou iluminação elétrica aos recantos rurais mais atrasados pela escuridão (Luz para Todos); criou o Bolsa Família, tirando 36 milhões de brasileiros da miséria e obrigando seus filhos a voltar à escola; levou água para milhões de brasileiros que sofriam com a seca no interior semiárido (programa Cisternas, premiado pela ONU); inventou Minha Casa Minha Vida, distribuindo moradias Brasil afora; criou Farmácias Populares que vendiam medicamentos com descontos para a população de baixa renda; implementou cotas raciais e sociais em universidades, contribuindo para que jovens negros e/ou vindos de escolas públicas pudessem estudar e no futuro talvez escapar de serem assassinados nas ruas do Brasil; implantou o Prouni (Universidade Para Todos), oferecendo bolsas para alunos de baixa renda estudarem em faculdades particulares; aumentou o salário-mínimo acima da inflação; etc.

Não me beneficiei pessoalmente de nenhum dos seus programas sociais, querido presidente. Sou brasileira privilegiada, nascida numa classe média da zona sul carioca. Fui jornalista nas maiores redações do Rio (Jornal do Brasil, O Globo, O Dia), depois virei escritora (premiada com dois Jabuti), fiz um doutorado e dois pós-doutorados em Literatura, na Uerj e na Sorbonne. E é justamente por isso, por tudo o que li, vi e aprendi, sobretudo na França onde morei durante anos, que posso dizer: países europeus só se desenvolveram porque aplicaram e aplicam projetos como os seus. Na França, por exemplo, o salário-mínimo é de uns R$ 4 mil (graças a décadas de greves e manifestações de trabalhadores “vândalos” por melhores salários); o seguro-desemprego dura de dois a três anos para que o desempregado não caia na miséria; há “locações sociais” que garantem moradia aos menos privilegiados; todos os remédios receitados nos hospitais públicos são dados ou subsidiados pelo governo etc.

O problema, é que quando uma parte da elite brasileira visita Paris, só vê a grande beleza. Finge não ver que aquela beleza só se sustenta graças à aplicação justa de impostos. Sim, as classes mais abastadas lá têm consciência política, sabem que o equilíbrio social depende delas. No Brasil não. Tem brasileiro que gasta milhares de euros em turismo na França e na volta reclama dos R$ 300 dados mensalmente aos beneficiados do Bolsa Família.

Sim, é difícil entender a mentalidade desses que frequentaram os melhores colégios particulares do Brasil. Até entendo, já que eu mesma cursei um dos melhores colégios particulares do Rio e não aprendi grande coisa. Lá não havia disciplinas como Literatura ou Filosofia, por exemplo, que nos ajudariam a ter um pensamento mais crítico. Que pena.

Só aprendi o que era o mundo quando comecei a encarar a miséria do meu país de frente em vez de virar a cara ao passar por ela na rua. Ainda na adolescência participei de um grupo que dava comida para os sem-teto no Rio e pude ouvir suas comoventes histórias de vida. Depois virei jornalista e passei a ouvir mais pessoas, das mais variadas origens, das favelas, dos interiores, e suas justas reivindicações.

Portanto, saiba, que não só o povo beneficiado pelos seus programas sociais está ao seu lado. Somos muitos escritores, artistas, professores de escolas e universidades, pessoas premiadas, com títulos, das mais diversas profissões. Justamente por termos lido tanto (livros, não apenas jornais e revistas), viajado, justamente porque conhecemos o Brasil profundo, entendemos a grandeza do que o senhor fez. Nós também somos esse povo.

Aliás, há inúmeros políticos, historiadores, intelectuais estrangeiros nas maiores universidades da Europa que também o admiram. E se escandalizam, por exemplo, quando ouvem comentaristas brasileiros dizerem de forma tão elitista que o eleitor de Lula é “povão”, “nordestino”, “ignorante”, “petista”, “lulista”, “petralha”, “fanático”. Intelectuais estrangeiros se chocam com a criminalização de pobres, negros, índios e da própria esquerda no Brasil. E também se chocam quando o xingam de “populista”, como se o senhor usasse o povo. Ora, ora, mas o senhor é o povo.

No mais, não entrarei no mérito do seu julgamento. Primeiro porque não acredito em condenação sem provas. Segundo porque desde o golpe de 2016, que tirou do poder uma presidenta eleita pelo povo, desde o dia em que ficou provado (e gravado!) o conluio entre os Poderes “com o Supremo, com tudo”, não acredito mais nas nossas instituições.

Claro que a Lava Jato é importantíssima para o país, mas o partidarismo seletivo e o gosto pelo espetáculo a diminuem. Talvez por isso grandes juristas estrangeiros têm apontado falhas absurdas no processo que o condenou.
Como disse o advogado inglês Geoffrey Robertson em entrevista recente à BBC de Londres, “o Brasil tem um sistema de acusação totalmente ultrapassado, em que o juiz que investiga, supervisiona a investigação, é o mesmo que julga o caso – e sem um júri!”. Outro jurista disse o mesmo num artigo no jornal The New York Times. Enfim, como acreditar numa justiça personalista, que num piscar de olhos pode beirar o justiçamento?

Nessas horas me lembro do que dizia Foucault: “Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar. (…) A prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro, em suas dimensões mais excessivas, e se justificar como poder moral.”

Sabe, quando a perseguição ao senhor começou na mídia, me lembrei do Betinho. Quase ninguém mais se lembra dele, o sociólogo Herbert de Souza, que criou associações de combate à fome e de pesquisa sobre a Aids nos anos 1990, quando os programas sociais do Estado eram insignificantes. Pois bem, esse cara, que devia ser coroado por seu esforço descomunal pelos pobres, um dia acordou sendo linchado da forma mais violenta pela imprensa por ter recebido doações de bicheiros. Os “puros” do país o atacaram de todos os lados, logo ele, “o irmão do Henfil” ex-exilado, hemofílico e soropositivo, tão magrinho, fiapo de gente, um dos poucos a combater a fome no Brasil. Mas não, para os “puros”, nada do que ele fazia pelos pobres compensava esse grande “erro”. Como se no Brasil houvesse dinheiro realmente “limpo”.

É, são assim os “puros”, os que não entendem a complexidade das lutas, os que fecham os olhos para as falcatruas dos ricos mas lincham o menino de rua da esquina, os que defendem uma ética que eles próprios não têm no dia a dia, enrolados em seus conchavos, compadrios, sonegações de impostos, corrupções de todo tipo. Das minhas andanças pelos bastidores do poder, posso dizer: os “puros”, mal acordam, já loteiam a alma.

É claro, que o senhor, além dos acertos, também cometeu erros. Quem não erra? Confesso que no início do seu governo estranhei, por exemplo, a sua aliança com a escória da política brasileira (PMDB etc.). Mas logo entendi que sem isso nenhum, nenhum, nenhum dos seus programas que revolucionaram o Brasil seria aprovado. Não sem esse toma-lá-dá-cá, não sem o cafezinho com o inimigo. Sonho sim com uma política pura, mas como, quando, se nunca, nunca, nunca foi assim nesse país?

Não vou, portanto, enumerar seus erros porque seus acertos os superam imensamente. Só a partir do seu governo entendi que a política pode muito mais do que o assistencialismo. Enquanto meus amigos e eu dávamos 50 quentinhas numa noite aos sem-teto do Rio, o senhor, com nossos votos, tirava milhões da miséria. Milhões de brasileiros.

O senhor acreditou antes de tudo na política, não em revoluções sangrentas radicais, para mudar o Brasil. E mudou. Não sou “lulista” nem “petista” (nunca me associei a partido algum), muito menos “petralha”. Mas, graças ao senhor, agora eu e milhões de brasileiros passamos a acreditar na política. E só por isso vale lutar.

Fico por aqui, no aguardo das eleições de outubro de 2018, quando um presidente de esquerda retomará o rumo desse Brasil desgovernado pelo conluio entre Poderes e onde, devido à corrupção, à leviandade e ao partidarismo das instituições, ideias fascistas se proliferam como bactérias.

Um grande abraço da
Luciana Hidalgo

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Por Fernando Horta
04/05/2018
“”Um dos conceitos-chave para entender a obra de Marx é o conceito de “alienação”. É um conceito do Marx jovem, porque da forma como é colocada no Capital ele é um conceito incompleto. Na sua maturidade, Marx trocou o uso do termo “alienação” pelo composto processual mais explicativo que é “opressão” ou “exploração”. É um suposto afirmado não pontualmente, mas em toda a obra de Marx que à toda alienação sobrevém a opressão e exploração que é o motivo de alienar.
Sacar alguém das suas amarras materiais, ideológicas, culturais – enfim – amarras que permitem que os homens se situem no tempo o no espaço é jogá-lo no vazio. Isto é alienação. Mas deixar o homem no vazio não é o objetivo, até porque ele ali não sobrevive sequer como ente produtivo. O objetivo final de todo o processo de alienação é o uso físico inescrupuloso para gerar valor, o uso ideológico do ser por um impostor intelectual que o coordena e o uso político do cidadão por uma classe a qual ele não pertence.

Marx nos seus “Manuscritos econômicos e filosóficos” de 1844, mostra cinco etapas da alienação que ocorrem dentro do sistema capitalista. Primeiro, o homem seria alienado da natureza em função do trabalho. Vive o dia e não o sol, a noite e não a Lua, nas palavras belas de Toquinho e Belchior. Quantos de nós hoje, saímos pela manhã para trabalhar, nos enfiamos num ônibus ou trem, depois numa fábrica ou escritório e na volta outro trem até que não se percebe que não se viu o Sol o dia inteiro?

A segunda e terceira formas de alienação seriam a alienação de si e de seus próprios desejos. Não sabemos mais o que realmente queremos, tudo é ditado pelo consumo e pela propaganda. Se conseguimos saber o que queremos, não nos parece viável, afinal “temos que trabalhar”. As pessoas falam da sexta-feira como um momento de alforria. É quase uma libertação de escravos toda a semana. Mas a empolgação da sexta esconde o ocaso de nós mesmos nos outros dias. “Seja feliz no trabalho”, “ache o que gosta de trabalhar”, “seja produtivo” e tudo mais dito hoje com nome de “coaching”, que no fundo é uma super-alienação em looping. No fim, esquecemos de nós, da família, do que nos dá prazer e nos deixa feliz. Em troca, produzimos para alguém, sobrevivemos e tomamos boletas para que quimicamente possamos entorpecer nossa alma.

Todas estas três primeiras formas estão presentes e arraigadas no nosso dia-a-dia. Provocando imensas dificuldades em termos de saúde. Mudando nossa anatomia, fazendo com que vivamos menos, mas criando mercado para a indústria farmacêutica, para a televisão, redes sociais …

Contudo, o mais apavorante são as duas últimas formas de alienação.

Marx disse que a quarta forma de alienação era a alienação quanto à sua espécie. O homem deixaria de se reconhecer como homem. A classe opressora se veria como algo mais do que homem. Talvez melhores, talvez mais “meritórios”. Talvez o dinheiro seja um signo do sucesso per se. Quem tem mais é porque fez e tem condições de fazer melhor. Como se fosse decorrência lógica inafastável do sistema capitalista premiar os “melhores de nós”. A classe oprimida se veria como inumanos, não dignos de postularem-se semelhantes. O fato de não ter dinheiro, indicaria, na cabeça destes alienados (tanto dos oprimidos quanto dos opressores), que eles são incompetentes, que não valem para a sociedade.

Temos seitas de pastores inteiros convencendo as pessoas desta nefasta e absurda ideia “em nome de Cristo”.

Quando vi a queda do prédio em SP, e a forma como uma elite mesquinha e ignorante tratava as pessoas-vítimas, vi o conceito de alienação de Marx. Nem vou falar de Dória ou Covas que são arremedos mal-feitos de humanidade incapazes de qualquer raciocínio mais elaborado e qualquer crítica da sua situação no mundo. Se fossem críticos e inteligentes, e – de repente – acordassem para a sua situação, certamente poriam fim nas próprias vidas, ao contemplarem diretamente sua pequenez e suas vilanias.

A agressão e ofensa aos pobres é o reconhecimento, por conta da completa ignorância, de que existem duas espécies de seres: uma que trabalha e tem dinheiro e a outra vagabunda que precisa ser “dedetizada por fogo”, como li – com ânsia – nos portais da grande mídia. Um bombeiro, cujo nome gostaria de saber, calou a boca de uma repórter inepta. Ao ser perguntado sobre caráter ilegal da ocupação respondeu, ao vivo, “não estou aqui para discutir legalidade, mas para salvar vidas”.

O golpe alienou a sociedade brasileira. Hoje, uma parcela acredita-se superior aos humanos. E este quantum de superioridade alcança inclusive suas Santidades Togadas, que já se enxergam como profetas a guiarem seu rebanho pelo deserto da corrupção, rumo à Terra Prometida.

Marx ainda falava numa quinta forma de alienação. Seríamos afastados da noção de humanidade como um coletivo social. Não apenas no sentido biológico como o caso da quarta forma, mas do sentido de humanidade como construto histórico-cultural. Nosso passado não seria mais importante, nosso futuro tampouco. Nosso presente seria marcado pela noção imediatista da sobrevivência mesmo que por sobre os outros seres. A palavra “irmão” não teria mais sentido num mundo em que o individualismo é a chave da sobrevivência. Achille Mbembe, filósofo negro camaronês, fala do “fim da era da humanidade”. Para Mbembe, estamos entrando num momento em que toda significação pelo que tantos morreram nos séculos anteriores será desconstruída. O mundo será refundado sem os valores que nos trouxeram até aqui, como espécie e como sociedade.

Marx e Mbembe explicam o absurdo de São Paulo.

E eu fico com os pobres que, mesmo alienados, não têm culpa de sua alienação. Choro de raiva e de dor ao ver que nem mais respeitam o legado de Cristo, o homem. Se a era do humanismo vai acabar, vai me consumir junto. E eu temo muito pelos meus filhos.
Ser humano hoje no Brasil é sentir dor todos os dias. Imposta por pessoas que estamos quase desistindo de tentar salvar. E enquanto choramos a decadência moral deles, vamo-nos nos convencendo de que eles não têm mais salvação. Ao deixarmos de acreditar, vamos morrendo também.”

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