Penso que desde o início dos tempos implantaram na alma do homem a inveja e ele passou a invejar o mais poderoso daquele que havia ouvido falar: Deus. O homem sempre quis brincar de ser Deus. Sempre quis interferir na vida do seu semelhante, deixar sua marca, impor suas idéias, seu modo de pensar (assim como nós, escritores), de agir, etc.. O homem sempre quis manipular o próximo, como sempre fizeram os governantes e os patrões desde o começo de tudo.
Antes, brincar de Deus era privilégio de poucos. O governo comandava, quando não, a igreja também dava suas ordens, impunha seus desejos mais questionáveis e absurdos. Depois, mais indivíduos foram adquirindo o poder de criar seu próprio mundo: os médicos, por exemplo, os cientistas, os policiais, até, pais, professores, políticos, chefes, líderes em geral…
Hoje, cada um tem seu mundinho particular, às vezes esquisito, como aquele garoto que cria uma iguana ou uns ratinhos em seu quarto, aquele outro viciado no video-game mais moderno e o que brinca com os soldadinhos de plástico (será que estes ainda existem?).
A tecnologia está diretamente ligada à mania do homem querer brincar de Deus. Quanto mais próximo das parafernálias tecnológicas, mais próximo o homem está de ser Deus. Paradoxo, não?
Estes dias mesmo estava eu brincando de criar sites na internet (como este) e cansei. Pensei: -Que tédio! Vou procurar outra coisa para fazer. – Comecei a ‘navegar’ e encontrei o download do Google Earth disponível. Não deu outra. Foi só ‘salvar’, ‘executar’ e lá estava eu dominando mundo. Parecia um moleque fazendo o tempo passar adiante, voltar atrás… Andava com a ajuda do meu cursor pelo mundo que se abria na telinha. Um verdadeiro descobridor, como no tempo das missões. Só que o que eles faziam em anos eu fazia em segundos. Extraordinário, não é mesmo? Conseguia fazer o que eu queria com aquele globo azul bem ali na minha frente. Brincar de Deus era prazeroso, magnífico, novo…
Eu, como ser racional que sou (será?), comecei a pensar que o homem que se atreve a brincar de Deus deve no mínimo potencializar ao máximo o seu senso de responsabilidade. À partir do momento que ‘lideramos’, ‘comandamos’, ‘cuidamos’ ou estamos simplesmente à frente de qualquer coisa, qualquer mesmo, devemos ter milhões de vezes mais responsabilidade para não afetarmos o outro negativamente. Se eu realmente fosse Deus e pudesse ver o planeta lá de cima como no Google Earth, pensaria mil vezes antes de dar qualquer mexidinha no cursor do meu laptop.